O Rio de RUY CASTRO

Eu conheço um lugar

A linha das montanhas, a cor das águas, o cheiro da maresia, isso é lindo e único, mas nem é tudo. Há um mundo para se conhecer além das praias. E o melhor são as pessoas, esse espírito de entrega.


Na certidão o local de nascimento é Caratinga, Minas Gerais, mas ele garante que é carioca desde antes de nascer. Os pais tinham uma pensão em frente à Igreja da Lapa, conheciam todo mundo e viviam muito bem num sobrado na Glória, então um dos bairros mais luminosos do Rio. Foi quando, já no final dos anos 40, a família se mudou temporariamente para Minas – como sua mãe estava grávida dele, brinca Ruy, “precisaram me levar, eu tive que ir”.

– Mas passei minha infância inteira indo para o Rio, ele lembra. – Todos os parentes da minha família moravam lá, mais de 40 pessoas para ver todos os anos, um festival de tias, sobrinhos, era normal ficar vários meses na cidade. Uma das minhas tias era professora de piano, e foi inesquecível a temporada que passei em seu apartamento na Barão do Flamengo, com o cotovelo fincado no piano, fascinado, acompanhando as aulas.

Entrando na adolescência, ele passou a acompanhar também a alma encantadora das ruas – a cidade fervilhante, animada, o cheiro de mar, ventos vindos do oceano e da Baía de Guanabara, que ele via pertinho, do Aterro do Flamengo:

– O Parque do Flamengo era o meu quintal. Já tinha fascínio quando era garoto, imagina já um pouco mais velho... o Monumento dos Pracinhas passou a ser o melhor lugar do mundo para namorar. Aquele foi o momento de me aproximar de uma região histórica da cidade junto à Glória, Flamengo, as palmeiras da rua Paissandu, a avenida majestosa cruzando o aterro até a enseada de Botafogo, que espetáculo. Então eu entrava na rua Voluntários da Pátria até o final, e para mim era a rua mais longa que existia, até que encontrei, só em Paris, uma rua tão grande quanto, a Rue du Vaugirard, que foi cenário do filme “Os três mosqueteiros”.

Naquela altura da cidade e da vida do jovem Ruy Castro, em 1967, foi selada a união estável, mas sempre excitante, entre o Rio e o jornalista que se tornaria o biógrafo mais respeitado do país. Quando apenas fruía a magia da cidade, não podia imaginar que muitos anos depois escreveria livros memoráveis sobre a própria história do Rio e das pessoas que se inscreveram nele, referências inescapáveis da metrópole à beira-mar.

Ruy decidiu se mudar definitivamente para a cidade quando passou no vestibular e, no primeiro dia de faculdade, começou a frequentar também a redação do Correio da Manhã. Em anos de intensa criatividade artística, com a explosão do Cinema Novo, dos festivais de canção popular e da Bossa Nova, ele rapidamente se engajou no cotidiano fervilhante da juventude carioca.

Passou a ser assíduo nas noites do cine Paissandu, tornou-se o mais novo e talentoso repórter do jornal, amigo de Nelson Rodrigues, José Lino Grunewald e Décio Pignatari. Também virou frequentador da Montenegro – a rua que hoje se chama Vinicius de Moraes, aquela mesmo onde o poeta se encontrou com Tom Jobim, no bar em que a garota de Ipanema ía comprar cigarros para a mãe...

– Era um mundo de gente fazendo a cidade acontecer em várias frentes... vontade de viver e criar, uma agitação contagiante. Consegui arrumar algumas madeiras para fazer uma estante onde aluguei o meu apartamento, e pronto – fiquei feliz da vida, iria morar sozinho pela primeira vez, e no Solar da Fossa!

No famoso condomínio, no final dos anos 1960, moraram estrelas da cultura brasileira como Caetano Veloso, Gal Costa, Abel Silva, Paulinho da Viola, Betty Faria... Aos 20 anos, o jovem Ruy circulava exatamente entre as duas regiões vizinhas ao Solar, o bairro de Botafogo e a orla das praias oceânicas, Copacabana, Ipanema e Leblon.

Hoje Ruy mora em uma cobertura no Leblon e, se não está absorvido por um novo projeto, escrevendo um livro, sai para uma caminhada até o Arpoador com a mulher Heloísa Seixas, também escritora. Agora prefere andar durante o dia, pelas manhãs, ao contrário do que fazia na juventude, quando namorar de noite nas areias de Copacabana ou Ipanema era um must. Agora não temos mais segurança para isto?

Ele é veemente ao afirmar que a cidade segue a fervilhar, ainda que mais violenta, como todas as grandes cidades do mundo, mas continua incomparável na sua capacidade de oferecer beleza, lazer, prazer.

– Não há nada de saudosismo, esse Rio existe, continua existindo. Você passeia pelos bares de Copacabana e eles estão lotados, quarteirões de gente se espalhando pelo bairro. A linha das montanhas, a cor das águas, o cheiro da maresia, isso é lindo e único, mas nem é tudo. Há um mundo para se conhecer além das praias. E o melhor são as pessoas, esse espírito de entrega.

O mundo além das praias, em suas investigações amorosas, inclui o coração da cidade antiga, a Praça Mauá, o Morro da Conceição, a Praça XV, os sebos da Rua do Rosário e da Carioca. Recentemente decidiu andar a pé da esquina da Voluntários, em Botafogo, até o centro da cidade, passando pela avenida Rui Barbosa, Rua da Glória – foi uma manhã inteira de caminhada, Heloísa fez as fotos, ele lembra, céu espetacular. Programas inusitados, fora do cardápio turístico tradicional, capazes de disparar outros pontos de vista sobre o skyline arrebatador da cidade – são os que prefere sugerir para os amigos.

– Saímos de uma vez para Inhaúma, atrás do sebo do Manuel. Olha, foi uma alegria. Como sempre acontece quando eu vou para qualquer lugar da cidade. As pessoas se aproximam, puxam assunto, todo mundo me conhece de algum lugar, ou parece que, ficamos logo à vontade. Nunca senti isso em qualquer outro lugar do país, e sei que tenho leitores em toda parte. Mas ninguém chega assim com tanta naturalidade, como se fosse íntimo. O carioca tem essa capacidade, de tocar e se relacionar com o outro. É impressionante essa entrega.

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